"Atenta para as sutilezas que não se dão em palavras.
Compreende o que não se deixa capturar pelo entendimento". (Rumi)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

OS DOMINGOS PRECISAM DE FERIADOS


Feriados - Dia de respeito e atenção a si e à vida...

Muito além de uma proposta trabalhista, entendemos a pausa como fundamental para a saúde de tudo o que é vivo.
A noite é pausa, o inverno é pausa, mesmo a morte é pausa.
Onde não há pausa, a vida lentamente se extingue.


Para um mundo no qual funcionar 24 horas por dia parece não ser suficiente, onde o meio ambiente e a Terra imploram por uma folga, onde nós mesmos não suportamos mais a falta de tempo, descansar se torna uma necessidade do planeta.

Hoje o tempo de "pausa" é preenchido por diversão e alienação.

Lazer não é feito de descanso, mas de ocupações "para não nos ocuparmos".

A própria palavra entretenimento indica o desejo de não parar.
E a incapacidade de parar é uma forma de depressão.

O mundo está deprimido e a indústria do entretenimento cresce nessas condições.
Nossas cidades se parecem cada vez mais com a Disneylândia.

Longas filas para aproveitar experiências pouco interativas.
Fim de dia com gosto de vazio. Um divertido que não é nem bom nem ruim.

Dia pronto pra ser esquecido, não fossem as fotos e a memória de uma expectativa frustrada que ninguém revela para não dar o gostinho ao próximo...

Entramos no milênio num mundo que é um grande shopping.
A Internet e a Televisão não dormem. Não há mais insônia solitária; solitário é quem dorme. As bolsas do Ocidente e do Oriente se revezam fazendo do ganhar e perder, das informações e dos rumores, atividade incessante.
A CNN inventou um tempo linear que só pode parar no fim.



Mas as paradas estão por toda a caminhada e por todo o processo.

Sem acostamento, a vida parece fluir mais rápida e eficiente, mas ao custo fóbico de uma paisagem que passa.

O futuro é tão rápido que se confunde com o presente.


As montanhas estão com olheiras, os rios precisam de um bom banho, as cidades, de uma cochilada, o mar de umas férias, o domingo de um feriado...

Nossas namoradas querem "ficar", trocando o "ser" pelo "estar".

Saímos da escravidão do século XIX para o leasing do século XXI.

- Um dia seremos nossos?

Quem tem tempo não é sério, quem não tem tempo é importante.

Nunca fizemos tanto e realizamos tão pouco.

Nunca tantos fizeram tanto por tão poucos...

Parar não é interromper. Muitas vezes continuar é que é uma interrupção.


O dia de não trabalhar não é o dia de se distrair:
- Literalmente, ficar desatento; - é um dia de atenção, - de ser atencioso consigo e com sua vida.

A pergunta que as pessoas se fazem no descanso é: "o que vamos fazer hoje?"
- Já marcada pela ansiedade.

E sonhamos com uma longevidade de 120 anos, quando não sabemos o que fazer numa tarde de Domingo.

Quem ganha tempo, por definição, perde. Quem mata tempo, fere-se mortalmente.
É esse o grande "radical livre" que envelhece nossa alegria.
- O sonho de fazer do tempo uma mercadoria.


Em tempos de novo milênio, vamos resgatar coisas que são milenares.
A pausa é que traz a surpresa, e não o que vem depois.
A pausa é que dá sentido à caminhada.
A prática espiritual deste milênio será viver as pausas.

Não haverá maior sábio do que aquele que souber quando algo terminou e quando algo vai começar.


Afinal, por que o Criador descansou? 


Talvez porque, mais difícil do que iniciar um processo do nada, seja dá-lo como concluído.


Rabino Nilton Bonder